Poderia Moscou 'socorrer' Maduro na resolução da crise interna venezuelana?

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Recentemente, o presidente do país latino-americano mergulhado em uma profunda crise econômica, Nicolás Maduro, veio a Moscou para participar de eventos ligados ao setor petrolífero e travar negociações com as autoridades russas. Os especialistas explicam o que essa visita pode significar para a própria Venezuela.

Entretanto, durante seu discurso na Semana de Energia da Rússia em Moscou, o líder venezuelano agradeceu à Rússia pela sua ajuda de longa data e pessoalmente a Vladimir Putin, presidente do país. Putin, por sua vez, assinalou a importância do início de um diálogo entre as autoridades venezuelanas e a oposição, o que pode ser um primeiro passo no caminho à estabilização, acredita o especialista russo em assuntos latino-americanos e professor da Universidade de Ciências Humanas da Rússia, Mikhail Belyat.

"A Venezuela só pode contar com si mesma, com decisões políticas razoáveis, com consenso com a oposição e, finalmente, com uma política econômica consistente no futuro. Por isso nós, verdadeiramente, fazemos tudo o que podemos, reestruturamos a dívida, acredito que esta questão também foi abordada pelos dois líderes durante as conversações", enfatizou.

O analista propôs manter um prognóstico otimista em relação à possível conciliação dentro do país, mas reconheceu que há certa pressão de fora, inclusive o efeito negativo das sanções estadunidenses.

Além disso, Belyat destacou que ao longo dos últimos anos a oposição venezuelana conseguiu se unir e ficar mais ou menos homogênea, por isso deve ser considerada como um negociador em pé de igualdade.

Outro especialista econômico da empresa de investimentos Alpari, Roman Tkachuk, assinalou que a situação atual na Venezuela faz lembrar a crise financeira na Rússia em 1991, ou seja, os "dias negros" da economia pós-soviética.

Aliás, a recente visita de Maduro faz parte de uma campanha global com o fim de encontrar parceiros na trajetória de saída da crise interna, acredita o interlocutor do serviço russo da Rádio Sputnik. Dado que, nas vésperas do seu encontro com Putin, o líder venezuelano falou sobre uma possível reestruturação da dívida do país em relação a Moscou, o analista observa:

"Acredito que isso vai ser discutido, mas ao mesmo tempo não descarto a hipótese da Venezuela tomar o caminho da Argentina que declarou o default. A Venezuela tem uma dívida grande. Além disso, nos próximos anos não se esperam preços do petróleo altos. […] A meu ver, um default é algo incontornável, e isso sucederá, cedo ou tarde, se não houver ajuda externa."

Quanto à parceria entre os setores privados russo e venezuelano, Tkachuk frisa que a Rússia, através de suas companhias Gazprom e Rosneft, tem interesses na Venezuela e vai continuar cooperando com ela, porém, isto mal aliviará a crise, pois a dívida a Moscou é apenas uma pequena parte da dívida externa.

Outro entrevistado, o especialista do Instituto Russo das Pesquisas Estratégicas Dmitry Burykh, fez enfoque no nível elevado das relações russo-venezuelanas, destacando não só os contatos entre os líderes, mas também os canais interparlamentares e entre várias instituições.

Segundo manifesta Burykh, Vladimir Putin tem sempre expressado apoio ao governo venezuelano e à sua resiliência na manutenção da soberania, relembrando o golpe militar nos meados da década de 2000, ainda no mandato de Hugo Chávez.

Em relação às recentes medidas restritivas e ameaças de afetar o setor petroleiro expressas por Washington, o analista se mostrou bem cético:

"A meu ver, isso é mais parecido com blefe. Mesmo nos períodos mais duros nas relações entre os dois países, particularmente nos mandatos de George W. Bush e Hugo Chávez, e com troca de declarações muito duras, a cooperação petroleira nunca se sujeitou a quaisquer dúvidas. Acho que se trata de uma espécie de tentativa de assustar e não de sanções reais que se pretenda introduzir. Pois, a maior parte do complexo petroleiro dos EUA se foca na refinação do petróleo venezuelano", explicou.

Contudo, o especialista adiantou que tais crises não são uma novidade para a economia bolivariana, que tem sido muito dependente das suas matérias-primas, com "erupções" inclusive no início da década de 80, por exemplo.

Falando da oposição no país, Belykh adianta: esta sempre foi apoiada pela Casa Branca (o que se demonstrou, inclusivamente, durante a recente visita do vice, Mike Pence, aos outros países da América Latina, durante a qual ele fez apelos bem claros) e, hoje em dia, também recebe apoio por parte do Brasil e seu presidente Michel Temer que, na opinião do analista, "chegou ao poder na sequência de um golpe de Estado".

"Hoje em dia, as negociações entre as autoridades venezuelanas e a oposição se travam sob condições novas. Primeiro, Maduro tomou uma postura forte, inclusivamente graças ao presidente estadunidense, Donald Trump. […] O senhor Trump tem muito cuidado nas suas declarações", manifestou o especialista, especificando que, após propor uma variante militar da resolução da crise na Venezuela, o líder americano, de fato, associou a oposição venezuelana com ideias de caráter agressivo e de possível intervenção militar.

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